eu não queria o mundo da informática para mim.
eu preferi - e prefiro - o mundo que eu tinha aos 15 anos de idade: nada virtual, tudo de verdade, concreto - árvore de verdade, livro de verdade, gente de verdade, tudo de verdade.
nele havia televisão, telefone, rádio, sim.
mas aquele mundo não-de-verdade durava pouco tempo, logo íamos lá fora no mundo de verdade e passávamos a maior parte do tempo com as pessoas com quem havíamos falado por telefone, longe da tv e do rádio.
assim, recusei-me a adotar o novo-mundo-de-mentira-feito-por-máquina quando ele chegou para todos. fiquei de fora.
mas foi horrível: dentro de alguns anos eu não podia mais ser profissional nem falar com amigos e parentes.
muito difícil, mas tive que mergulhar naquelas novas águas - desagradáveis.
bem, hoje, uns dez ou quinze anos depois da decisão - forçada, sinto eu - de mergulhar, aqui estou, começando a me tornar capaz de ser profissional e de falar com amigos e parentes outra vez.
agora, porém, sem a alegria de ir no mundo lá fora e passar horas com as pessoas com quem "me relaciono" virtualmente. o mundo ficou complicado, ninguém pode mais estar junto concretamente.
é assim que é, agora.
* * *
este blog é o resultado "concreto" de minha "adaptação" ao novo mundo.
resultado de meus exercícios em redes sociais, emails, leitura de dezenas de blogs, tentativas de compreensão do funcionamento de tudo isso.
transportei meu antigo e querido diário de papel a um diário virtual fechado.
trago extratos dele para este novo lugar - virtual.
não para ser meu querido diário público, não com objetivos acadêmicos, não com objetivos literários, não com objetivos profissionais.
mas para começar a usar minha nova identidade: a minha identidade virtual no mundo.
minha antiga identidade era composta pelo ser que eu era ao caminhar pelas ruas da cidade, ao frequentar escola, trabalho, casas de amigos. minha aparência física, minha voz, minha fala, meus gestos era o que me dava identidade para as pessoas que me conheciam (ainda que de vista) e para as pessoas que me viam passar. formar opinião sobre mim acontecia com base no que viam de mim.
poucas pessoas hoje me reconhecem pela minha antiga identidade.
na profissão, na família, na amizade, agora, minha nova identidade virtual é que traz o reconhecimento de mim.
minha postura física, meus gestos, minha voz já não são mais conhecidos. lugares que frequento concretamente já não dizem mais de mim.
minhas palavras escritas na rede e minha presença virtual é que compõem minha identidade social, agora.
se pretendo existir no mundo de hoje, preciso ter fotos digitais de mim, palavras publicadas por mim. meu tom de voz e meu estado de espírito precisam ser expressos por novissimas e mutantes interjeições gráficas. minha linguagem precisa ser aquela "falada" virtualmente por todos, hoje.
as antigas pontuação, ortografia, estrutura das frases, estrutura dos textos já não cabem mais nesse novo mundo. precisei aprender uma nova língua.
acompanhando a revolução virtual, ou sendo sua causa, o modo de ser e de se relacionar das pessoas mudou profundamente. aquela linguagem do meu tempo é impossível de ser utilizada hoje.
assim como todo o meu longo aprendizado escolar da utilização de lápis, caneta, cadernos e livros de papel tornou-se algo inútil, agora. e tenho que, na idade madura, passar por nova alfabetização, por difíceis e infindos exercícios motores para que meu corpo possa ser capaz de manejar os novos instrumentos. que não são apenas instrumentos comunicativos de erudição como o eram os de papel - mas agora instrumentos de existência e visibilidade profissional, familiar, e de amizade.
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